30 anos
1980-2010

Em 2010, nos 30 anos sobre o boom, foram publicadas 18 entrevistas, 3 destaques e 9 colaborações de escribas da música nacional. Fica aqui esse registo/memória.

COLABORAÇÕES . 30 anos
DESTAQUES . 30 anos

UHF – “À FLOR DA PELE” (1981)


Análise feita por Aristides Duarte em 2010 (nos 30 anos do boom)


 

UHF – álbum “Á FLOR DA PELE”- 1981

Antes de se chamarem UHF chamavam-se Á Flor da Pele, pelo que foi natural que o primeiro LP da banda tivesse esse título. Na capa é visível, para além da fotografia do grupo, a palma de uma mão (ou seja a pele humana).

Trata-se de um disco de rock puro e duro, com algumas influências da nascente new wave inglesa em alguns dos temas.

Os UHF não eram um daqueles grupos que nasceu com o “boom”, uma vez que já existiam desde 1978. Até já tinham um disco gravado antes do “boom” , o EP “Jorge Morreu”. Eram, mesmo antes do lançamento do primeiro álbum, a banda que mais concertos fazia, pelo país. Mas o “boom” deu um enorme impulso à carreira dos UHF o qual, se calhar, nem eles próprios esperavam.

Este LP, que continha como bónus, na sua primeira edição, um single com dois temas - “Noite Dentro” e “Quem irá beber comigo? (Desfigurado)” - é a verdadeira emancipação da banda de Almada, comandada por António Manuel Ribeiro (guitarra, voz e principal compositor). Foi, também, o disco da confirmação dos UHF como uma banda sólida, com pernas para andar (e cá estão eles, em 2010, com 32 anos de carreira e milhares de quilómetros percorridos).

Os restantes membros da banda que participaram na gravação foram Carlos Peres (baixo e voz), Renato Gomes (guitarra e voz) e Zé Carvalho (bateria). Achei sempre curiosa a prestação de Zé Carvalho, na bateria dos UHF, já que a sua técnica me parece diferente da de outros bateristas do rock português.

O LP abre com “Rua do Carmo”, hoje uma canção mítica, pelo poema e pela música. Segue-se o longo tema “Rapaz Caleidoscópio”, com a letra quase declamada por António Manuel Ribeiro, à qual mais tarde seriam acrescentados novos versos, em outras versões. A seguir aparecem “Nove e Trinta” e “ (Anjo) Feiticeiro”, dois temas bastante interessantes. “Modelo Fotográfico” (depois lançada em single) é outra das canções emblemáticas deste LP. A sexta canção deste álbum é “Rola Roleta”, a que se segue a história de “Geraldine” que foi “violada no quarto da mãe e agora passeia estoirada ao ritmo que a vida tem”. Este tema tem uns curiosos solos de guitarra acústica que dão um sabor diferente à música dos UHF. O último tema deste álbum é “Ébrios (Pela Vida), um pouco diferente do resto do álbum, já que se trata de um tema mais bluesy, (como os próprios versos indicam “os blues marcando a vida, quando o grito desafina, e as ideias explodem, nas veias do poeta, traçando o ritmo, forçando a rima…”). Trespassa, neste tema, a influência de Jim Morrison e dos The Doors. Durante anos, quando alguém queria denegrir a música dos UHF e o próprio António Manuel Ribeiro, falava-se dos The Doors e da influência que o grupo de Jim Morrison exercia sobre a banda de Almada, como se isso fosse um grande pecado.

António Manuel Ribeiro nunca negou essa influência, aliás, tal como o fez numa entrevista que concedeu a Rui Pedro Silva autor do livro “Contigo Torno-me Real”, editado em 2009, uma longa biografia sobre os The Doors.

Em suma, “À Flor a Pele” é um disco incontornável de toda a música moderna portuguesa, sendo essencial se considerarmos o período (curto) do “boom” do rock português.

UHF – "Anjo feiticeiro"

UHF – "Rapaz caleidoscópio"

X