A multifacetada... rocker
© António Luís Cardoso [2023]
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"Brincar com o tempo sem perder o fio à meada, fazer de cada actuação uma actuação diferente, cantar cada frase com a respiração do grupo, cada palavra com o sentido mais profundo e sempre renovado pelos imprevistos do improviso (...) E isso fica comigo para sempre."
Lena d'Água ao Museu do Boom, 2010
No momento em que o boom acontece, já Lena d’Água tinha um percurso na música, o qual passava pelos Beatnicks, Diadágua, Petrus Castrus (coros em “Ascenção e queda”), em nome próprio (com o single “O nosso livro” e o LP infantil “Qual é coisa qual é ela?”, ambos de 1979) e até com duas participações em festivais da canção[1]. Mas também no teatro: com as peças "Viagem à Iris"[2], de Rui Mesquita, e "Ou Isto Ou Aquilo", sob texto de Cecília Meireles – peça que marca o início de uma colaboração de anos com o autor das músicas: Luís Pedro Fonseca – e onde Lena é não só actriz mas também directora musical.
E, quando Rui Veloso “explodiu” com “Chico fininho”, o então projecto que a cantora integrava[3], Salada de Frutas, tinha já um LP e single extraído do mesmo (“Sem Açucar” e “Como se eu fosse tua”, respetivamente, 1980).
“Robot”, sendo o primeiro êxito da banda é já, portanto, o terceiro registo discográfico. E é este mesmo disco que fecha a colaboração da cantora com os Salada de Frutas. Existe um diferendo que leva à saída de Lena e também de Luís Pedro Fonseca. Juntos, avançam para novo projecto, intitulado “Lena d’Água e a Banda Atlântida[4]”, assinando com a Valentim de Carvalho.
O single de estreia, “Vígaro cá, vígaro lá” (1981), criou a ideia que seria alguma indirecta aos antigos companheiros dos Salada (que mais tarde, no último disco, se designarão mesmo assim), mas tal nunca foi assumido.
O que é certo é que se tornou uma das músicas mais ouvidas do “boom”, a par de “Demagogia”, esta última já incluída no primeiro álbum: “Perto de ti” (1982). A produção fica a cargo do inglês Robin Geoffrey Cable[5] (que entre outros, trabalhou com Elton John), revelando-se um sucesso, uma vez que o disco esteve perto do ouro, vendendendo cerca de 18 mil cópias. Ainda fará esse papel nos dois álbuns seguintes, “Lusitânia” (1984) e Terra Prometida (1986)[6], discos onde encontramos uma matriz menos próximas do rock de “Perto de ti”, mas ainda assim, seguindo um caminho consistente onde Luís Pedro Fonseca continua a ter um papel fundamental.
No terceiro álbum (“Aguaceiro”, 1987), porém, abre-se espaço alargado para outros autores: encontramos originais de Tahina/José Fanha (“Voar”), Pedro Ayres Magalhães (“Fim do verão”) e de Rui Veloso/Carlos Tê (“Aguaceiro”, que dá nome ao LP), bem como versões de temas de Sérgio Godinho e Milton Nascimento (“A barca dos amantes”), José Afonso (“Era um redondo vocábulo”) ou de António Variações (“Estou além”)[7].
Esta vontade de construir vários papéis na música, dando voz a compositores tão díspares marcará boa parte do percurso até aos dias de hoje de Lena d’Água, navegando não só no pop e rock, mas também no jazz, culminando recentemente no álbum “Desalmadamente” (2019).
Uma nota para o álbum de 1989, fechando o ciclo discográfico nos anos 80, “Tu aqui”[8], com reminiscências à época do “boom”, uma vez que inclui diversos originais de Variações (por ele não gravados) e que o projecto Humanos recuperará quinze anos depois.
Recordada mediaticamente como a "menina bonita do rock português" ou a "primeira rocker de sucesso", a voz e o talento parecem, por vezes, ficar injustamente secundados, sendo importante frisar que Lena d’Água é claramente uma das referências não só do boom mas também, sem qualquer dúvida, da música portuguesa em geral.
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[1] Com os Gemini, fazendo coros, indo também à Eurovisão, em Paris, com a canção vencedora "Dai Li Dou", em 1978; e como intérprete num tema de Paulo Carvalho, "Olá Cega Rega", em 1979.
[2] Com participação dos músicos Armando Gama (Tantra) e do seu futuro marido, Ramiro Martins (Beatnicks)
[3] Juntamente com Zé da Ponte, surgindo como músicos convidados Guilherme Inês, Zé Carrapa e Rui Cardoso: ver disco AQUI.
[4] Ver Banda Atlântica, AQUI
[5] Ver projecto musical de Cable, Interface, AQUI
[6] Neste último, em parceria com Luís Pedro Fonseca.
[7] José Fanha já tinha assinado um poema no “Lusitânia” (“É ao mar que eu pertenço”), LP que tem também um tema assinado por Jorge Palma/Carlos Fortuna (“Eu tenho um sonho”).
[8] Produzido pelos ex-colegas dos Salada de Frutas, Guilherme Inês e Zé da Ponte.