© António Luís Cardoso [sob texto originalmente feito em Maio.2010]
______
Os Iodo são daquelas bandas do "boom" que deixaram um amargo de boca, pois a breve carreira soube a pouco.
O grande sucesso desta banda da margem sul (região que viu despontar inúmeros projectos: UHF, Xutos & Pontapés, Rock & Varius, Grupo de Baile, etc.), foi o inesquecível "Malta à Porta". A este, sucede, quase de imediato, outro single: "A Canção", sob pressão da editora (repescando dois temas gravados na mesma altura daquele hit):
"A passagem pelo Angel Studio foi tão volátil como a carreira dos Iodo. O que interessava era colocar os temas em fita, sem haver tempo a gastar, pois uma hora de estúdio custa dinheiro. Contudo nos quatro temas ficou fielmente registado o nosso som, e quem nos ouviu e viu ao vivo não encontrou grandes diferenças".
Rui Jorge Trindade
Tenho a memória das aparições na TV, do teledisco do "Malta à Porta" (gravado na Costa da Caparica para o "Vivamúsica"), com a banda dentro de água e dos rumores sobre actuações fantásticas, cénica (com o piano a arder!) e musicalmente.
Há uma força nestes Iodo em 45 rotações que nos faz pensar que poderiam ter tido outro percurso. Mas o tempo que se seguiu foi o de triar sem piedade e o espaço português não comportava as ínumeras propostas trazidas pela loucura de 80/81 e ainda remanescente em 1982.
Era (e é) comum que após o(s) single(s) de estreia se seguisse um longa duração. Assim acontece com "Manicómio", em 1982. Aliás, como se pode constatar aqui no museu, este é o ano dos álbuns do rock português: cerca de três dezenas, número nunca antes registado e irrepetível antes do advento da música online.
"Manicómio" é um álbum muito, muito interessante, onde se percebem excelentes vocalizações, arranjos e temas de grande qualidade. Mas também se percebe essa pressão de então na produção, no lançar de mais um sucesso, tão ao jeito das editoras.
Por outro lado é um virar de página na banda, com novos elementos na viola baixo e na bateria (ver as formações da banda, embaixo), o que interferirá com o som anterior.
Comprei o álbum em fins dos anos 80, saudoso do "Ceby" que tocava nas rádios; um tema que não será, de facto o mais forte do álbum, incapaz de suceder à força de "Malta à porta". Como recorda, aliás, em primeiríssima mão, um dos elementos da banda, Rui Jorge Trindade, no seu blogue (onde, aliás, surge uma muito interessante descrição, tema a tema, deste álbum). O guitarrista deixa-nos ainda a ideia da força da banda nos espectáculos ao vivo, nem sempre se traduzindo da melhor forma para o vinil as canções já experimentadas em palco.
Quer-me parecer, no entanto, que também deste caminho em 33 rotações (bastando recordar temas como "Lendas", "Expiração dum louco" ou "Ventos do Além") resultariam bons frutos num futuro que não foi.
Infelizmente, os Iodo padeceram, passe o exagero da metáfora, desse "assinar documentos em papel molhado". É que, como muitos, terão acreditado que o fenómeno era para continuar e as editoras raciocinavam mais com as calculadoras...
Nessa perspectiva, o que seriam os Iodo hoje, acaso a história de "Manicómio" tivesse sido, como merecia, outra?
_____
* Verso da canção "Malta à porta".
A citação de Rui Jorge Trindade é retirada do seu antigo blogue.